Glossário em Libras amplia o acesso de pessoas surdas à informação sobre câncer
Trabalho desenvolvido reúne sinais da oncologia em Libras e aponta caminhos para uma comunicação em saúde mais justa, acessível e participativa.
Fabíola Corrêa atua há mais de 20 anos na área educacional e também participa do “Projeto Surdos”, uma iniciativa de destaque na UFRJ que tem como objetivo a inclusão de pessoas surdas no ambiente científico e acadêmico, muitas vezes em colaboração com o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES).
O projeto desenvolve técnicas e metodologias de ensino adaptadas, utilizando Libras (Língua Brasileira de Sinais), para tornar o conhecimento mais acessível a todos.
POPULARIZA: Qual o tamanho do problema de acesso à saúde, mais especificamente ao câncer, quando a barreira é a linguagem e a comunicação?
Fabíola: Quando a barreira é linguística, o problema é enorme e muitas vezes invisível. No caso do câncer, isso se torna ainda mais grave, porque estamos falando de diagnóstico, tratamento, prognóstico, dor, medo e decisões difíceis.
Para muitas pessoas surdas, que usam a Língua Brasileira de Sinais, a informação em saúde simplesmente não chega ou chega de forma fragmentada. Todo o sistema de campanhas, materiais informativos e explicações médicas é produzido em língua portuguesa.
Então, quando falamos de câncer, a pessoa sabe que está doente, mas não compreende exatamente o que está acontecendo no corpo, o porquê daquele tratamento ser necessário ou quais são os cuidados envolvidos.
POPULARIZA: E como essa falta de compreensão afeta a vida desses pacientes surdos?
Fabíola: Isso impacta diretamente na autonomia do paciente. Sem informação acessível, não existe escolha consciente. Na prática, isso gera ansiedade, insegurança, abandono de tratamento e até riscos à vida. O problema não é a surdez, mas a falta de acessibilidade linguística no sistema de saúde.
“Quando garantimos acessibilidade linguística na saúde, não estamos fazendo um favor. Estamos garantindo um direito.”
POPULARIZA: Você pode dar alguns exemplos, tanto de vidas que podem ser afetadas pelo glossário quanto de termos que são cotidianos para alguns, mas não para outros?
Fabíola: Esse glossário pode impactar muitas vidas: pessoas surdas diagnosticadas com câncer, familiares surdos, mães e pais surdos acompanhando filhos em tratamento, estudantes surdos da área da saúde, intérpretes e até profissionais de saúde que desejam se comunicar melhor com pacientes surdos.
Um exemplo muito concreto vem da minha própria experiência como intérprete. Termos como cateter, metástase, biópsia, quimioterapia, radioterapia, tumor benigno ou tumor maligno são palavras comuns para profissionais da saúde, mas não necessariamente possuem sinais consolidados em Libras.
POPULARIZA: Como esse tipo de informação é transmitido quando não existe um sinal para a palavra em questão?
Fabíola: Quando não existe um sinal, muitas vezes recorremos à soletração. Mas soletrar uma palavra não significa que a pessoa compreendeu o conceito.
Sem o sinal e sem o conceito construído na língua de sinais, aquela informação pode ficar vazia.
O glossário ajuda justamente nisso. Ele não é apenas uma lista de sinais, mas uma ferramenta de construção de sentido, que possibilita que a pessoa surda compreenda melhor o que está acontecendo com o próprio corpo e participe de forma mais ativa das decisões sobre sua saúde.
POPULARIZA: Como foi a produção desse glossário e qual o futuro que você percebe para o combate não só ao câncer, mas também para cuidados mais justos e acessíveis?
Fabíola: A produção desse glossário foi um processo bastante cuidadoso e colaborativo. Primeiro, fiz um levantamento dos principais termos da oncologia em língua portuguesa, a partir de materiais científicos e institucionais, como os produzidos pelo Instituto Nacional de Câncer.
Depois, busquei sinais já existentes em Libras em diferentes fontes, como cartilhas, manuais, vídeos e materiais produzidos por grupos de pesquisa e projetos voltados à acessibilidade.
É importante destacar que este glossário reúne sinais que já existem em Libras e que foram identificados em diferentes contextos de uso. Ainda assim, ele está muito aquém da terminologia necessária para dar conta de toda a complexidade da área da saúde e, especialmente, da oncologia.
POPULARIZA: E como se dá o desenvolvimento de novos termos e jargões na Língua Brasileira de Sinais?
Fabíola: O desenvolvimento de novos termos em Libras depende necessariamente da participação ativa da própria comunidade surda, porque é dentro da língua e da cultura surda que esses conceitos precisam ganhar forma e sentido.
Só envolvendo a população surda nesse processo será possível ampliar o repertório terminológico da Libras nas áreas da saúde e do câncer.
Por isso, este trabalho não pretende esgotar o tema. Pelo contrário, ele indica o início de um caminho que ainda precisa ser trilhado coletivamente.
Além disso, os termos selecionados passaram por uma validação dupla: uma validação científica, realizada com especialista da área da oncologia, e uma validação linguística e cultural, realizada com pessoas surdas envolvidas com pesquisa e extensão.
Após essa etapa, os sinais foram registrados em vídeo, considerando aspectos como clareza, visualidade e uso real da língua.
Eu vejo esse trabalho como um primeiro passo. O glossário não resolve todos os desafios de acessibilidade em saúde, mas abre caminhos importantes.
Ele mostra que é possível pensar em práticas de cuidado mais justas, que respeitem a língua, a cultura e os direitos linguísticos das pessoas surdas.
POPULARIZA: Você gostaria de acrescentar algo mais sobre a importância desse trabalho ou sobre a acessibilidade linguística na área da saúde para as comunidades surdas?
Fabíola: Sim. Eu gostaria de destacar que esse trabalho não nasce apenas de uma preocupação acadêmica, mas também de experiências muito concretas.
Ao longo da minha trajetória como intérprete e pesquisadora, pude perceber o quanto a falta de acessibilidade linguística em contextos de saúde pode gerar angústia, insegurança e até isolamento para pessoas surdas e suas famílias.
A Libras não é uma língua limitada. O que muitas vezes existe é uma falta de investimento, de pesquisa e de reconhecimento da importância de produzir conhecimento também nessa língua.
Quando garantimos acessibilidade linguística na saúde, não estamos fazendo um favor. Estamos garantindo um direito.
E falar sobre câncer em Libras é também falar sobre dignidade, autonomia e sobre o direito das pessoas surdas de compreender plenamente aquilo que envolve a sua própria vida e o seu próprio corpo.
Conheça o Projeto Surdos
Os vídeos ajudam a contextualizar a trajetória do projeto e sua atuação na construção de metodologias de ensino, acessibilidade científica e inclusão de pessoas surdas no ambiente acadêmico.



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