Afinal, o plástico pode aumentar o risco de câncer?

Pesquisadora do Programa de Oncobiologia explica o que já foi descoberto sobre bisfenóis, micro e nanoplásticos e câncer de tireoide, e lista recomendações para reduzir os danos.

Populariza a Ciência do Câncer entrevista

Afinal, o plástico pode aumentar o risco de câncer?

Pesquisadora explica o que já foi descoberto sobre bisfenóis, micro e nanoplásticos e sua relação com o câncer de tireoide, e lista recomendações para reduzir os danos causados pelos plásticos.

A entrevista é do Populariza a Ciência do Câncer, um projeto de extensão da UFRJ voltado à aproximação entre pesquisa, saúde e sociedade.

Entrevista: Emely de Lira, estudante de farmácia da UFRRJ · Populariza a Ciência do Câncer

Andrea Claudia Freitas Ferreira, de braços cruzados, sorrindo
Andrea Claudia Freitas Ferreira, professora associada da UFRJ e pesquisadora do Programa de Oncobiologia. Foto: reprodução do perfil da pesquisadora no site do Simpósio

Nesta entrevista, a Drª Andrea Claudia Freitas Ferreira, pesquisadora líder do Programa de Oncobiologia explica o que já foi descoberto sobre bisfenóis, micro e nanoplásticos e sua relação com o câncer de tireoide. Ela ainda lista recomendações para reduzir os danos causados pelos plásticos tanto às pessoas, individualmente, quanto à sociedade.

Essa é mais uma entrevista do Populariza a Ciência do Câncer, por Emely de Lira, estudante de farmácia da UFRRJ.

POPULARIZA: Primeiro, antes de fazer as perguntas sobre a pesquisa em si, gostaria de perguntar como a senhora percebeu que queria seguir o caminho acadêmico e se poderia contar um pouquinho sobre esse processo, mais a título de curiosidade para o público que também possa ter interesse em seguir essa trajetória.

Drª Andrea: Desde cedo eu sempre quis entender como as coisas funcionam — e a ciência é, para mim, a forma de levar essa curiosidade a sério. No ensino médio, tive a sorte de estudar em um curso técnico de Biotecnologia na ETFQ-RJ (hoje IFRJ), onde muitos professores eram também pesquisadores. Numa dessas aulas, conheci o método científico: recebemos a tarefa de observar um fenômeno, formular uma hipótese e desenhar um experimento para testá-la. Ao desenvolver aquele trabalho, percebi algo simples e transformador — eu podia fazer perguntas e, com métodos, buscar respostas.

Mais tarde, quando entrei num laboratório da UFRJ, sob a orientação da professora Denise Pires de Carvalho, tive a confirmação prática desse encantamento. Fazer um experimento, ver o resultado, notar que ele resolve uma dúvida e, simultaneamente, abre centenas de outras é viciante. Foi aí que entendi: eu não queria apenas conhecer respostas — queria viver da busca por elas. Foi assim que escolhi a carreira acadêmica.

POPULARIZA: O que motivou o desenvolvimento dessa pesquisa sobre bisfenóis e os micro e nanoplásticos e como eles estão relacionados ao câncer de tireoide?

Drª Andrea: O plástico está em toda parte: é barato, leve e resistente, por isso nos cerca o tempo todo. Mas essa onipresença traz exposição contínua a substâncias que compõem os plásticos, como os bisfenóis, e aos próprios fragmentos do material, os micro e nanoplásticos. Nós ingerimos essas substâncias pela comida e bebida, inalamos em poeira doméstica e absorvemos pela pele.

Esses compostos não são inertes no corpo. Eles podem interagir com células e alterar processos celulares fundamentais. A tireoide é especialmente vulnerável porque suas células respondem a sinais hormonais e químicos; alterações nesses sinais podem favorecer mudanças no crescimento e no comportamento celular. Estudos observacionais já apontaram que pessoas com tumores da tireoide tendem a apresentar níveis mais altos de bisfenol A.

Nota da redação: estudos em humanos sobre bisfenol A e câncer de tireoide têm resultados divergentes, e nenhum deles estabelece causa e efeito. Um exemplo é o estudo publicado na Bioscience Reports em 2017, que encontrou mais bisfenol A na urina de pacientes com carcinoma papilar de tireoide.

No nosso laboratório, investigamos exatamente como componentes dos plásticos afetam a biologia das células da tireoide, quais caminhos moleculares são ativados, que tipos de dano ou desregulação acontecem e como isso pode, em última instância, criar um ambiente favorável ao desenvolvimento do câncer de tireoide.

POPULARIZA: Por que o câncer de tireoide tem chamado tanta atenção nos últimos anos?

Drª Andrea: O câncer de tireoide é o mais comum entre os tumores do sistema endócrino e sua incidência vem aumentando nas últimas décadas. Parte desse aumento se deve à melhoria no diagnóstico, já que métodos de imagem mais sensíveis detectam nódulos pequenos que antes passavam despercebidos.

Mas isso não explica tudo: também há sinais de aumento real de casos clínicos [de câncer de tireoide], possivelmente ligados a mudanças no ambiente e nos hábitos de vida. O crescimento da produção e do uso de plástico, com maior exposição a compostos como bisfenóis e à poluição por micro e nanoplásticos, é uma hipótese plausível porque muitas dessas substâncias interferem nos sinais hormonais e no comportamento das células da tireoide.

Por isso, a comunidade científica investiga tanto fatores diagnósticos e genéticos quanto exposições ambientais: entender quais desses elementos estão realmente impulsionando o aumento é crucial para a prevenção, o monitoramento e o desenvolvimento de políticas de saúde pública.

POPULARIZA: Qual é a relação entre micro e nanoplásticos e suas possíveis alterações nas células da tireoide?

Drª Andrea: Pesquisas recentes mostram que micro e nanoplásticos não são apenas partículas passivas, eles podem interferir diretamente no funcionamento das células. No caso da tireoide, estudos indicam que essas partículas alteram a expressão de proteínas essenciais para produzir hormônios tireoidianos e para manter a identidade e o funcionamento das células da glândula.

Na prática, isso significa duas coisas preocupantes. Primeiro, mudanças na síntese hormonal podem levar a níveis anormais de hormônios da tireoide, que regulam o metabolismo, o crescimento e o desenvolvimento, afetando o bom funcionamento do organismo. Segundo, a desregulação de sinais que controlam a proliferação e a diferenciação celular pode tornar o tecido mais suscetível a processos que evoluem para tumores.

Os mecanismos exatos ainda estão sendo mapeados: hipóteses incluem adsorção de contaminantes químicos (como bisfenóis) nas superfícies das partículas, transporte desses contaminantes até as células, ativação de vias inflamatórias e estresse oxidativo, além da modulação de genes e proteínas que regulam crescimento e função tiroidiana.

POPULARIZA: Quais são os maiores desafios encontrados durante essa pesquisa, de que forma os resultados desse estudo podem contribuir para a saúde pública?

Drª Andrea: Um dos maiores desafios do nosso trabalho é a limitação de recursos. Faltam verbas para reagentes e equipamentos, bolsas para formar estudantes e pessoal técnico para manter e ampliar as investigações. Essas restrições atrasam experimentos, reduzem o número de questões que conseguimos testar e limitam a capacidade de replicar achados em modelos distintos, passos essenciais para transformar uma observação em evidência sólida.

Apesar das dificuldades, os resultados têm impacto direto na saúde pública. Ao identificar como componentes do plástico interferem na função da tireoide e nos caminhos celulares relacionados ao câncer, nosso estudo fornece evidências que podem:

  • informar recomendações individuais, ajudando pessoas a reduzir exposições evitáveis (por exemplo, escolhas de embalagens, práticas de armazenamento de alimentos);
  • orientar profissionais de saúde sobre possíveis fatores ambientais a considerar em prevenção e diagnóstico;
  • subsidiar políticas públicas e regulações para limitar uso de substâncias preocupantes e controlar emissões de micro/nanoplásticos;
  • apontar prioridades para vigilância ambiental e biomonitoramento em populações vulneráveis.

Em suma: superar os desafios de financiamento amplia a robustez das evidências; e evidências robustas permitem ações que vão desde mudanças de comportamento até políticas regulatórias que podem reduzir o risco populacional associado à exposição aos plásticos.

POPULARIZA: Existe alguma forma de reduzir a exposição ao bisfenol A, ao bisfenol S e aos microplásticos no dia a dia?

Drª Andrea: Existem medidas simples que ajudam a diminuir a exposição a bisfenóis e a partículas de plástico:

  • Evite aquecer alimentos em recipientes plásticos. O calor aumenta a liberação de compostos como bisfenol A e S.
  • Não guarde alimentos muito ácidos (molhos de tomate, vinagre) ou muito alcalinos em recipientes plásticos por longos períodos; esses alimentos facilitam a migração de componentes do plástico para o alimento.
  • Prefira vidro, aço inox ou cerâmica para armazenar e aquecer alimentos e bebidas. Use embalagens plásticas apenas quando necessário.
  • Reduza o uso de plásticos descartáveis (copos, talheres, garrafas) e opte por alternativas reutilizáveis.
  • Reduza a poeira doméstica, limpezas úmidas regulares ajudam a diminuir a inalação de micro e nanoplásticos presentes na poeira doméstica.
  • Descarte corretamente os plásticos e prefira reciclagem quando disponível; reduzir o consumo de plástico ajuda a limitar a contaminação ambiental a longo prazo.

Essas atitudes não eliminam totalmente a exposição, mas reduzem a carga diária e são passos práticos que cidadãos podem adotar enquanto a pesquisa e as políticas públicas avançam.

POPULARIZA: O que você espera que essa pesquisa possa impactar no futuro, tanto na ciência quanto na indústria?

Drª Andrea: Espero que nossa pesquisa ajude a traduzir evidência científica em mudanças reais, tanto no conhecimento quanto nas práticas industriais. Na ciência, queremos mapear os mecanismos pelos quais componentes do plástico afetam a tireoide e o risco de câncer, gerando dados robustos que orientem recomendações clínicas, biomonitoramento e futuras linhas de investigação. Esses avanços tornam possível identificar populações vulneráveis e marcadores precoces de dano.

Na indústria, o objetivo é oferecer subsídios para inovação e regulação. Evidências sobre riscos podem estimular a substituição de substâncias problemáticas, o redesenho de materiais para reduzir a lixiviação de compostos e a adoção de processos que minimizem a geração de micro/nanoplásticos. Também podem orientar políticas de rotulagem e padrões de segurança que protejam os consumidores.

Mais amplamente, espero que os resultados contribuam para um debate público informado sobre como produzimos e descartamos materiais. O plástico facilita a vida e move a economia, mas sua produção e destino têm custos ambientais e de saúde. Mostrar esses custos ajuda a sociedade, a indústria e os governos a repensarem decisões de consumo, cadeias produtivas e regulações e, assim, a construirmos um legado mais saudável para as próximas gerações.

“O plástico facilita a vida e move a economia, mas sua produção e destino têm custos ambientais e de saúde.”

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